Fiz a seguinte crônica inspirada em um recorte da HQ “Um pedaço de madeira e aço” de Christophe Chabouté, um excelente quadrinista francês que já adaptou obras como “Moby Dick”, por exemplo. O texto foi usado para um trabalho da minha pós graduação em Práticas Literárias e aplicado em sala de aula para os meus alunos, objetivando materializar uma produção de sentido a partir de textos imagéticos. A imagem a seguir é retirada da história em quadrinhos. Boa leitura!
Comme toi - Diogenes Pontes
Pessoas idosas costumam ter
seus costumes e conosco, meu amor, não é diferente. Sabemos que quando a idade
chega com ela também vem certas restrições alimentaras, mas tão bom um docinho
vez em quando, não acha? E é por isso que eu você, na nossa harmonia,
escolhemos a quarta-feira como dia oficial do doce. Religiosamente vamos à
padaria e compramos um sonho, uma fatia de bolo de laranja, qualquer alimento
que deixe tudo mais leve e sentamos no nosso banco da Praça da República.
Sabendo das nossas limitações, sem exageros! Partimos ao meio e dividimos nossa
pequena-grande alegria do dia. Nada diferente do que fazemos durante todos
esses anos, não é verdade?
Falando em anos, quanta coisa
que já vivemos. Lembro direitinho de quando te vi pela primeira vez: você
falava francês com um grupo de turistas que visitavam o Teatro da Paz. Eu,
muito caboclo, estranhava aquela sucessão de escarros, mas ao mesmo tempo achei
tão belo vindo de você. Depois de muito jeito fui me aproximando,
aproximando... e enfim, você sabe muito bem da nossa história tanto quando eu.
O importante é que o cara que veio tentar a vida na cidade e a professora se
encontraram e cá estamos.
Gosto tanto do jeito que a
gente se cuida. Gosto tanto quando você, de manhã, faz um pão na frigideira
para mim, com cafezinho preto, deixa em cima da mesa e pega meu rosto com as
duas mãos, encostando sua testa na minha e não fala nada, só ouço sua
respiração tão leve, tão frágil, mas eu consigo ouvir seu coração falar “je
t’aime” e eu, mesmo com toda essa estrada ao seu lado, respondo em
português mesmo “também te amo, minha flor”, ainda que você não tenha
verbalizado nada. Mas eu conheço teu olhar, meu amor. Teu olhar é o primeiro
indício de qualquer palavra.
Naquele nosso banco
relembramos nossas histórias e as dos outros também, inclusive daqueles já se
foram. Nessa hora bate um saudosismo, eu sei. Inclusive sempre achei o
saudosismo a sua cara, é uma sensação poética e poesia é outra coisa que
combina muito com sua pessoa. Cada transeunte pra você é um universo passando
bem na sua frente, “olha aquele jovem, mesmo com evidente pouca idade tem os
olhos de quem já carregou o mundo nas costa”, eu dou risada e você continua: “a
gente não sabe nada do outro mesmo”.
Mas algumas coisas mudaram de
um tempo pra cá, meu bem, acredito que você tenha noção, ou não. Ontem, na hora
do nosso café, o pão estava lá e você também, mas as suas mãos não chegaram ao
meu rosto e sua testa não encostou na minha. Te vi sentar bem na minha frente e
começar a falar, de forma bem embriagada, da sua amiga que tinha visto ontem,
mesmo ela tendo falecido há três anos. Após isso você está falando coisas
inaudíveis. 30min. depois da chegada ao médico seu cérebro já havia ido. Nas
nossas conversas sobre a finitude da vida e quem de nós morreria primeiro nunca
imaginamos que sua mente abriria caminho. Pouco tempo depois, você se foi
completamente.
Meu bem, está tudo muito
estranho por aqui, não sei explicar ao certo. Tenho tanto tempo de vida e não
aprendi a me despedir e não sei se quero. Hoje é quarta e eu estou aqui no
nosso banco, com o nosso doce que cortei ao meio e comi uma metade. Olho para
outra metade na esperança de sentir algo próximo a tua presença, mas me parece
tão inalcançável. Você deve estar se perguntando por que eu não como a outra
metade, mas meu amor, é difícil. Nosso amor me deu um coração grande e um
estômago pequeno. Não consigo, me perdoe. Deixarei a outra metade em cima do
banco e acredito que a doçura atrairá as formigas, comme
toi, mon amour. Como você. Agora. Desculpe, não sei ser poético.
