domingo, 21 de julho de 2019

Comme toi.

Fiz a seguinte crônica inspirada em um recorte da HQ “Um pedaço de madeira e aço” de Christophe Chabouté, um excelente quadrinista francês que já adaptou obras como “Moby Dick”, por exemplo. O texto foi usado para um trabalho da minha pós graduação em Práticas Literárias e aplicado em sala de aula para os meus alunos, objetivando materializar uma produção de sentido a partir de textos imagéticos. A imagem a seguir é retirada da história em quadrinhos. Boa leitura!



Comme toi - Diogenes Pontes

Pessoas idosas costumam ter seus costumes e conosco, meu amor, não é diferente. Sabemos que quando a idade chega com ela também vem certas restrições alimentaras, mas tão bom um docinho vez em quando, não acha? E é por isso que eu você, na nossa harmonia, escolhemos a quarta-feira como dia oficial do doce. Religiosamente vamos à padaria e compramos um sonho, uma fatia de bolo de laranja, qualquer alimento que deixe tudo mais leve e sentamos no nosso banco da Praça da República. Sabendo das nossas limitações, sem exageros! Partimos ao meio e dividimos nossa pequena-grande alegria do dia. Nada diferente do que fazemos durante todos esses anos, não é verdade?

Falando em anos, quanta coisa que já vivemos. Lembro direitinho de quando te vi pela primeira vez: você falava francês com um grupo de turistas que visitavam o Teatro da Paz. Eu, muito caboclo, estranhava aquela sucessão de escarros, mas ao mesmo tempo achei tão belo vindo de você. Depois de muito jeito fui me aproximando, aproximando... e enfim, você sabe muito bem da nossa história tanto quando eu. O importante é que o cara que veio tentar a vida na cidade e a professora se encontraram e cá estamos.

Gosto tanto do jeito que a gente se cuida. Gosto tanto quando você, de manhã, faz um pão na frigideira para mim, com cafezinho preto, deixa em cima da mesa e pega meu rosto com as duas mãos, encostando sua testa na minha e não fala nada, só ouço sua respiração tão leve, tão frágil, mas eu consigo ouvir seu coração falar “je t’aime” e eu, mesmo com toda essa estrada ao seu lado, respondo em português mesmo “também te amo, minha flor”, ainda que você não tenha verbalizado nada. Mas eu conheço teu olhar, meu amor. Teu olhar é o primeiro indício de qualquer palavra.

Naquele nosso banco relembramos nossas histórias e as dos outros também, inclusive daqueles já se foram. Nessa hora bate um saudosismo, eu sei. Inclusive sempre achei o saudosismo a sua cara, é uma sensação poética e poesia é outra coisa que combina muito com sua pessoa. Cada transeunte pra você é um universo passando bem na sua frente, “olha aquele jovem, mesmo com evidente pouca idade tem os olhos de quem já carregou o mundo nas costa”, eu dou risada e você continua: “a gente não sabe nada do outro mesmo”.

Mas algumas coisas mudaram de um tempo pra cá, meu bem, acredito que você tenha noção, ou não. Ontem, na hora do nosso café, o pão estava lá e você também, mas as suas mãos não chegaram ao meu rosto e sua testa não encostou na minha. Te vi sentar bem na minha frente e começar a falar, de forma bem embriagada, da sua amiga que tinha visto ontem, mesmo ela tendo falecido há três anos. Após isso você está falando coisas inaudíveis. 30min. depois da chegada ao médico seu cérebro já havia ido. Nas nossas conversas sobre a finitude da vida e quem de nós morreria primeiro nunca imaginamos que sua mente abriria caminho. Pouco tempo depois, você se foi completamente.

Meu bem, está tudo muito estranho por aqui, não sei explicar ao certo. Tenho tanto tempo de vida e não aprendi a me despedir e não sei se quero. Hoje é quarta e eu estou aqui no nosso banco, com o nosso doce que cortei ao meio e comi uma metade. Olho para outra metade na esperança de sentir algo próximo a tua presença, mas me parece tão inalcançável. Você deve estar se perguntando por que eu não como a outra metade, mas meu amor, é difícil. Nosso amor me deu um coração grande e um estômago pequeno. Não consigo, me perdoe. Deixarei a outra metade em cima do banco e acredito que a doçura atrairá as formigas, comme toi, mon amour. Como você. Agora. Desculpe, não sei ser poético.
            

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Crônica: Nasceu Paulo!

Nasceu Paulo! Cheio de oportunidades, de nome bíblico. Seu berço era de ouro. Pobre menino, pobre mãe, ficou horas no corredor do hospital público, deitada numa maca pública para, enfim, ser publicamente atendida. Ótimo atendimento e o parto foi um sucesso. Um cortezinho feito a laser e pronto! Não vai ficar nem cicatriz. Saindo do hospital lá estava o carro à sua espera, climatizado e silencioso, perfeito para o transporte de um bebê recém-nascido. A mãe chegou ao barraco, cansada, quase não podendo andar por causa do esforço que fez para subir o vertical e nada preparado caminho e também por causa do ônibus lotado, tendo cuidado em dobro para segurar seu filho e os pontos da cirurgia. Deixando o bebê em seu berço, a mãe tem seu merecido repouso na king super confortável. Logo mais ele chora. Será que o berço improvisado com lençóis está incomodando? Será fome? É fome. Deu-lhe o peito. Deu-lhe o peito com certa tranquilidade que nem percebera. “Espero que esse leite dure bastante...” pensou, temendo o futuro.
Paulo brinca com os outros quatro, um antes e três depois de seu nascimento, desses últimos um veio com o novo marido. Para todos eles a educação era muito importante então já para o colégio! O retorno para casa foi bem agitado: o pai festejava os grandes avanços de sua empresa e quando chegou o barraco havia desmoronado num deslizamento. Cá está Paulo, órfão e sem os outros. Foi morar com a avó que tudo via por trás de uma cortina d’água e os ossos tão frágeis que mal aguentavam um abraço do netinho. Paulo, novo, matriculou-se no inglês, precisava aprender a língua estrangeira mediante uma possibilidade de mudança para a América. Paulo teve que largar a escola e vender Drops no sinal pra complementar sua permanência na casa da avó. Ele adorava Drops! Voltava do inglês, no carro, e viu que estava sendo vendido. Pediu para o pai que baixou a janela e comprou o desejo do filho, de uma moça dos cabelos longos e olhos escuros, saia a baixo do joelho, chamava-se Janaína e vendia balas no sinal para ajudar no evento beneficente da igreja que frequentava. “Paz no Senhor”. Paulo deu o troco e agradeceu muito aquela moça do carro bonito, de cabelos longos e olhos escuros. Janaína, o nome dela. Pastora de uma igreja evangélica que promovia muitos eventos beneficentes. “Paz no senhor, meu filho”.
A adolescência chegou e trouxe todas aquelas obrigações e problemas infanto-juvenis. Vestibular, rebeldia, preguiça, mais trabalho, provações, karatê, sobreviver e entre outras coisas. Paulo manteve-se firme mesmo com tudo isso. Vida difícil essa de adolescente. Vendia de tudo e em qualquer lugar, principalmente na praia. Paulo tinha tudo que queria, o celular, o livro, o CD, tudo. Tinha futuro também, futuro este que já estava decidido, Paulo quando crescer vai ser médico! E foi. Obstetra, trabalhava em vários hospitais dando a luz a muitos Paulos com cortes a laser e bisturi. Diferente do apóstolo Paulo que era um homem pequeno e tornou-se grandioso, Paulo já nascera grande, no cume da pirâmide. Coitado... Morava na favela e no dia da ocupação o que era perdido o encontrou... estava dormindo. Acho que foi tranquilo. Queria ser medico, pobrezinho. Diferente do apóstolo Paulo que era um homem pequeno e tornou-se grandioso, Paulo nasceu pequeno e não teve muitas oportunidades de se estender. Manteve-se na base da pirâmide. Mas e esses pais que juram que o nome pode determinar o destino de uma pessoa?!