Nasceu Paulo! Cheio de oportunidades, de nome bíblico. Seu berço era de ouro. Pobre menino, pobre mãe, ficou horas no corredor do hospital público, deitada numa maca pública para, enfim, ser publicamente atendida. Ótimo atendimento e o parto foi um sucesso. Um cortezinho feito a laser e pronto! Não vai ficar nem cicatriz. Saindo do hospital lá estava o carro à sua espera, climatizado e silencioso, perfeito para o transporte de um bebê recém-nascido. A mãe chegou ao barraco, cansada, quase não podendo andar por causa do esforço que fez para subir o vertical e nada preparado caminho e também por causa do ônibus lotado, tendo cuidado em dobro para segurar seu filho e os pontos da cirurgia. Deixando o bebê em seu berço, a mãe tem seu merecido repouso na king super confortável. Logo mais ele chora. Será que o berço improvisado com lençóis está incomodando? Será fome? É fome. Deu-lhe o peito. Deu-lhe o peito com certa tranquilidade que nem percebera. “Espero que esse leite dure bastante...” pensou, temendo o futuro.
Paulo brinca com os outros quatro, um antes e três depois de seu nascimento, desses últimos um veio com o novo marido. Para todos eles a educação era muito importante então já para o colégio! O retorno para casa foi bem agitado: o pai festejava os grandes avanços de sua empresa e quando chegou o barraco havia desmoronado num deslizamento. Cá está Paulo, órfão e sem os outros. Foi morar com a avó que tudo via por trás de uma cortina d’água e os ossos tão frágeis que mal aguentavam um abraço do netinho. Paulo, novo, matriculou-se no inglês, precisava aprender a língua estrangeira mediante uma possibilidade de mudança para a América. Paulo teve que largar a escola e vender Drops no sinal pra complementar sua permanência na casa da avó. Ele adorava Drops! Voltava do inglês, no carro, e viu que estava sendo vendido. Pediu para o pai que baixou a janela e comprou o desejo do filho, de uma moça dos cabelos longos e olhos escuros, saia a baixo do joelho, chamava-se Janaína e vendia balas no sinal para ajudar no evento beneficente da igreja que frequentava. “Paz no Senhor”. Paulo deu o troco e agradeceu muito aquela moça do carro bonito, de cabelos longos e olhos escuros. Janaína, o nome dela. Pastora de uma igreja evangélica que promovia muitos eventos beneficentes. “Paz no senhor, meu filho”.
A adolescência chegou e trouxe todas aquelas obrigações e problemas infanto-juvenis. Vestibular, rebeldia, preguiça, mais trabalho, provações, karatê, sobreviver e entre outras coisas. Paulo manteve-se firme mesmo com tudo isso. Vida difícil essa de adolescente. Vendia de tudo e em qualquer lugar, principalmente na praia. Paulo tinha tudo que queria, o celular, o livro, o CD, tudo. Tinha futuro também, futuro este que já estava decidido, Paulo quando crescer vai ser médico! E foi. Obstetra, trabalhava em vários hospitais dando a luz a muitos Paulos com cortes a laser e bisturi. Diferente do apóstolo Paulo que era um homem pequeno e tornou-se grandioso, Paulo já nascera grande, no cume da pirâmide. Coitado... Morava na favela e no dia da ocupação o que era perdido o encontrou... estava dormindo. Acho que foi tranquilo. Queria ser medico, pobrezinho. Diferente do apóstolo Paulo que era um homem pequeno e tornou-se grandioso, Paulo nasceu pequeno e não teve muitas oportunidades de se estender. Manteve-se na base da pirâmide. Mas e esses pais que juram que o nome pode determinar o destino de uma pessoa?!
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