quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Ode à saudade.


É preciso criar saudades. Isso é um pensamento a longo prazo. A memória feliz é instantânea e rápida, mas a saudade é uma construção do tempo: à medida que ele vai passando, coloca-se um tijolo, depois mais outro, mais outro, até que já existam sólidos muros que formam labirintos, separando o passado do presente de diversas formas. Separados pelas mudanças de ideia. Separados pelas demandas.
Sou um cultivador de saudades. Lembro-me de quando saía da aula de educação física com meus amigos da escola, íamos à padaria e comprávamos uma garrafa de Coca-Cola com pasteis. Comíamos e riamos muito, sem nem um motivo muito convincente, mas nem um de nós precisávamos de um. Também lembro de ir ao banco da escola e deitar no colo da minha amiga e desse modo eu via um pedaço do céu. Tenho saudade de tudo isso e nem sempre isso me dói. A saudade é uma ruga de bons momentos da vida, deixada na nossa atual forma de pensar, agir, falar, de olhar... se ela existe é porque a vida foi boa.
Eu já sei o caminho desses labirintos. Lembro de cada tijolo que o tempo ergueu entre mim e aqueles momentos, alguns eu mesmo os coloquei. Atualmente, antes de começar minha aula, eu tomo um café naquela padaria, não mais refrigerante e pastel, agora eu peço um café com leite e um pão na frigideira. Depois de ter ministrado a aula eu espero os alunos saírem, vou andando devagar até o banco, sento e depois deito, colocando a cabeça na mochila. Olho o céu. Não é mais o mesmo, ele era mais bonito quando eu estava deitado no colo da minha amiga. Mas o que faço lá? Saudades, meus caros, ando fazendo minhas futuras saudades.