É preciso
criar saudades. Isso é um pensamento a longo prazo. A memória feliz é
instantânea e rápida, mas a saudade é uma construção do tempo: à medida que ele
vai passando, coloca-se um tijolo, depois mais outro, mais outro, até que já
existam sólidos muros que formam labirintos, separando o passado do presente de
diversas formas. Separados pelas mudanças de ideia. Separados pelas demandas.
Sou um
cultivador de saudades. Lembro-me de quando saía da aula de educação física com
meus amigos da escola, íamos à padaria e comprávamos uma garrafa de Coca-Cola
com pasteis. Comíamos e riamos muito, sem nem um motivo muito convincente, mas nem
um de nós precisávamos de um. Também lembro de ir ao banco da escola e deitar
no colo da minha amiga e desse modo eu via um pedaço do céu. Tenho saudade de tudo
isso e nem sempre isso me dói. A saudade é uma ruga de bons momentos da
vida, deixada na nossa atual forma de pensar, agir, falar, de olhar... se ela
existe é porque a vida foi boa.
Eu já sei o
caminho desses labirintos. Lembro de cada tijolo que o tempo ergueu entre mim e
aqueles momentos, alguns eu mesmo os coloquei. Atualmente, antes de começar
minha aula, eu tomo um café naquela padaria, não mais refrigerante e pastel,
agora eu peço um café com leite e um pão na frigideira. Depois de ter
ministrado a aula eu espero os alunos saírem, vou andando devagar até o banco,
sento e depois deito, colocando a cabeça na mochila. Olho o céu. Não é mais o mesmo, ele era mais
bonito quando eu estava deitado no colo da minha amiga. Mas o que faço lá? Saudades,
meus caros, ando fazendo minhas futuras saudades.
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