segunda-feira, 6 de abril de 2020

O isolamento é social, mas não de si mesmo


Não sei em qual ano você, caro leitor, estará lendo isso, mas escrevo este texto no dia seis de abril de 2020 e, agora, estamos no meio de uma pandemia que nos exige total isolamento, ainda que muitos estejam resistindo a essa medida, seja por necessidade ou por ignorância e gerência de uma criatura vil, tacanha e ególatra que governa este país. Sem sombra de dúvidas são tempos difíceis.

O momento de quarentena me fez sentir vontade de revisitar alguns textos acadêmicos da época da faculdade – guardo quase todos – e lendo um sobre estudos de literatura clássica americana, cuja obra era Typee e Omoo, de Herman Melville, deparo-me com uma frase: “Tous nos malheurs viennent de ne pouvoir être seuls”, de Jean de La Bruyère, escritor francês do século XVII. Uma tradução livre seria “todas as nossas desgraças vêm de não podermos estar sós” e é curioso ler isso em tempos de isolamento social, onde estar só, para alguns, não é mais uma questão de poder e sim de dever. E que angustia isso provoca em muitos de nós.

Obviamente, neste momento, o vírus que se encontra lá fora é uma grande desgraça, mas queira chamar atenção sobre outra questão tão pestífera quanto: a desgraça que fazemos conosco. Como é nociva a privação de um enfrentamento moral que fazemos com nós mesmos. Fugimos de um inimigo lá fora e de outro aqui dentro, dentro da nossa cabeça, se rendendo a uma dinâmica tortuosa de consumo extremo de cultura de massa para jogar um dardo de sonífero na fera dos nossos íntimos. E, quando tudo isso acabar, leremos, veremos e ouviremos diversos discursos de gratidão, superação e resiliência, como se o que acabara de acontecer fosse um teste individual de elevação espiritual. Inclusive “resiliência” é uma palavra que eu abomino. Ora, se eu sofro um impacto e torno a ser exatamente como era antes, do que adiantou sofrer aquele baque? Não, não quero ser resiliente. Quero ser voragem. Segundo o dicionário, voragem é tudo aquilo que é capaz de tragar, sorver e destruir com violência, é como um buraco negro no meio do espaço que suga tudo que está ao seu redor. É isso que eu quero; pegar tudo isso para dentro de mim, assimilar o que for necessário para viver e destruir o que não é, porque um bom aprendizado não pode existir agora com traumas.

Então, desgraçado e isolado leitor, se me permite um pitaco, permita-se. Aproveite e se visite, tem alguém muito importante te esperando dentro de você mesmo, sentado à mesa de um boteco com uma cerveja ou em uma padaria, te aguardando para um cafezinho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário