quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Hoje eu só estou querendo existir...

“Professor, o que o senhor faz no seu tempo livre?” é uma pergunta que meus alunos fazem para mim com certa recorrência. Nessas horas me sinto até um pouco estimado, sabe? Finjo que estou de frente com Marília Gabriela ou Abujamra, recebendo provocações (eu sei, é óbvio que ele não faria uma pergunta simples dessa). Minha mente vai formulando respostas não-obvias que esses programas de entrevistas tanto gostam. Mas eu estou de frente para um aluno então a primeira resposta que surge na minha cabeça é “que tempo livre?”. Porém ao pensar com mais precisão sem fugir da sinceridade, no meu tempo livre eu gosto mesmo é de não fazer absolutamente nada!, curtir o ócio, apenas curtir a experiência de existir em cima de uma cama.

Fico sinceramente abismado com pessoas que dão duas batidas no peito e uma na mesa para dizer “eu sei fazer varias coisas ao mesmo tempo!” e esbanjam essa demanda pós-moderna como se fosse o suprassumo dos novos tempos. Deus me livre! Eu sei fazer varias coisas ao mesmo tempo também, mas não gostaria de precisar, sabe? E quem diz que gosta ou está mentindo, ou está louco, ou já foi inteiramente interpelado pela dinâmica capitalista. Vai lá, movimento essa roda, por vezes vou ter que ir junto, é o jeito. Afinal, eu sei fazer varias coisas ao mesmo tempo muito bem.

O meu tempo livre é para o nada, que nem existe, todavia vamos fingir que sim. Mas professor e as leituras? Bom, nem sempre é possível aproveitar um romance para o puro deleite sem academicismos e análises teóricas. Até tento, mas parece uma simbiose, já era! Mas professor, o senhor não escreve? Escrevo sim, mas escrever dói pra cacete! Agora mesmo eu estou escrevendo isso com um certo penar. No máximo eu ponho meus fones de ouvindo e aperto o play numa playlist de instrumentais bem dramáticos por exigência da minha essência melancólica e fico lá, aproveitando meus devaneios existenciais. Tão gostoso.

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